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sexta-feira, 8 de janeiro de 2016

Auta de Souza: Mulher, Negra, Potiguar

Auta de Souza 1876-1901.
Google Imagens, 2016.
          Falar sobre Auta de Souza é percorrer os caminhos da sensibilidade da alma feminina, de uma mulher que transcendeu as barreiras de seu tempo e cravou em seus versos o seu olhar sobre o mundo, o sertão, sobre Auta de Souza.
        Nasceu em 12 de Setembro de 1876 na cidade de Macaíba, na época uma cidade de expressiva participação política no Estado do Rio Grande do Norte, ficou órfã aos 06 anos de idade e mudou-se para o Recife, onde aprendeu a ler e a escrever. Esse período foi importante pelo contado na capital pernambucana com outros poetas e escritores que estavam inseridos em movimentos literários no Brasil.
          A obra de Auta de Souza é profundamente marcada por cinco fatores: a religiosidade, a orfandade, a trágica morte de uns de seus irmãos, uma amor não vivido e a tuberculose que ceifou sua vida aos 25 anos, em 1901, em Natal - RN.
          Auta apesar das limitações de sua saúde e do machismo que até hoje impede as mulheres de ocupar determinados espaços, não sentiu-se intimidada e desafiando seu tempo colocou nas palavras de seus versos poéticos a mística de uma alma romântica e de uma mulher forte.
       Considerada por Câmara Cascudo como a "maior poetisa mística do Brasil" escrevia seus poemas em tons apreciavelmente românticos com alto valor estético e fortes influencias simbolistas. Frequentou em Pernambuco o Clube do Biscoito, uma associação de amigos e amantes das letras onde se deleitavam com recitações de poemas, e nesse momento de sua vida passou a ter contato com grandes nomes da literatura brasileira como Castro Alves, Junqueira Freire, Gonçalves Dias, entre outros.
          De fato Auta de Souza é uma das mais ilustres poetisa, se não a maior, do Rio Grande do Norte. De sua autoria temos o Livro Horto publicado em 1900, tendo o prefácio escrito pelo saudoso Olavo Bilac, sendo reeditado em Paris, em 1910, com ilustrações artística de D. Widhopff.


Livro Horto de Auta de Souza.
Google Imagens, 2016.
        Horto se constitui da história de uma grande dor transformada em versos, obra em que Auta rompe com as barreiras da escrita feminina impostas pela sua época. Sua poesia é dotada de um lirismo permeado de pureza marcando seu estilo próprio, onde ela mistura elementos religiosos com leves e ao mesmo tempo forte teor romântico.
        Eis que segue um trecho de uns dos seus poemas no livro Horto:

        
TUDO PASSA 
              I 
Aquela moça graciosa e bela 
Que passa sempre de vestido escuro
 E traz nos lábios um sorriso puro,
 Triste e formoso como os olhos dela...
 (...).
          Assim são os versos de Auta de Souza, profundos, singelos que marcam as formas, os encantos e desencantos com os quais ela ver e entende o mundo a sua volta.
            Abaixo temos um vídeo produzido pelo Canal Futura em parceria com o Projeto a Cor da Cultura do Ministério da Educação e o Ministério da Cultura, sobre os "Heróis de Todo Mundo" em que atores interpretam e contam um pouca da vida de personalidades negras, que transpuseram as barreiras sociais do seu tempo, e são extremamente importantes para a História e Cultura Brasileira. O vídeo traz a atriz Thaís Araújo no papel de Auta de Souza, uma Cidadã Negra, Brasiliera.


          
           Hoje o Blog Afros trouxe alguns elementos da vida e da história de Auta de Souza, que ainda é pouco conhecida no Brasil e em especial no Rio Grande do Norte, que traz em sua vida as marcas de uma mulher negra, forte que deixou em seus versos as lamúrias e impressões de sua existência e seu entendimento sobre o mundo e a vida.


Por Ana Paula de Lima
Esp. em História e Cultura Afro-brasileira.

Confira o Livro Horto de Auta de Souza:
Baixe o Livro Horto

Fontes de Pesquisa para a Construção do Texto.
Passei na Web: http://www.passeiweb.com/estudos/livros/horto
Jornal da Poesia: http://www.jornaldepoesia.jor.br/asouza01b.html
Vídeos do Youtube: https://www.youtube.com/watch?v=p5LCoeyxtlo
Concafras - PE: http://www.concafras.com/concafras/index.php/bio-auta-de-souza


quarta-feira, 16 de setembro de 2015

Mulher negra também ama! As trajetórias de solidão das mulheres negras no Brasil

Solidão e Racismo
Google Imagens
          A Revista Fórum em publicação no dia 10/09 do corrente ano trouxe uma matéria bastante elucidativa sobre uma temática ainda pouco abordada, ou mesmo vista em variados setores da sociedade brasileira: a questão da afetividade das mulheres negras, ou seja seus relacionamentos amorosos, suas construções familiares, suas trajetórias de vida.
          O processo de escravidão que provocou a diáspora africana trouxe consigo a marca da solidão, da subalternação, e da construção de uma mulher negra servil, tanto no âmbito social, amoroso, quanto no sexual. Segundo dados do Censo do IBGE de 2010 mais da metade das mulheres negras no Brasil não vivem em comunhão, isso nos remente a uma questão histórica e social, de que as nossas relações afetivas foram e são construídas através dos processos de segregação entre brancos e negros e pelo machismo que vem agravar essa situação.
Mulheres Negras
Google Imagens
         No mercado matrimonial as mulheres negras saem em desvantagem com relação as mulheres brancas, pois essas últimas são aceitas como o padrão ideal para o casamento, são as "boas moças" que desde a colônia tem um "papel de respeito perante a sociedade", enquanto as negras pela sua cor, cabelos, aparência e lugar social em que sempre foram postas não são para casar.
         Os homens negros reproduzem esses discursos no sentido de perpetuá-los, pois uma parcela significativa desses homens casam-se com mulheres brancas e em muitos casos as negras servem como amantes ou "diversão sexual". Não estou aqui dizendo que não sou a favor dos casamentos inter-raciais, mas quando olhamos alguns dados e as próprias configurações da sociedade brasileira percebemos que há algo de muito errado nessa conjectura.
       
Mulher Negra
Google Imagens
          Essas constatações se apoiam em duas crenças que estão entranhadas em nossa cultura: o Racismo, por defender a superioridade de uma cor em relação a outra, e o Machismo que tenta diminuir o ser e o papel da mulher na sociedade. A mídia também tem contribuído de forma significativa e determinante na divulgação e perpetuação de esteriótipos negativos com relação as mulheres negras, com comerciais, novelas e seriados em que as colocam em papéis subalternos e na maioria das vezes em núcleos familiares sem a presença do marido. Isso acaba internalizando no imaginário social que a mulher por ser negra não merece amar ou ser amada, que seu lugar, que antes era na senzala ou na cozinha da sinhazinha, agora é na periferia e nos trabalhos domésticos das madames das cidades.
         
Odara
Artista plástico Muha Bazila
           Não estou aqui reproduzindo um discurso histórico totalitário, no sentido de que todas as mulheres negras do Brasil são vitimadas pela solidão. Mas diante de diversas pesquisas, estudos e a luta de diversas mulheres é notável que uma parcela de mulheres negras se encontram nesta situação, e que merecem um olhar diferenciado no tocante as suas relações afetivas e sociais, sem mencionar a construção histórica e social das mulheres negras no Brasil, assim como o próprio racismo que tenta naturalizar todas essas questões. Mas apesar dos teriótipos negativos, a mulher negra também ama, se apaixona, tem o direito de ser amada, por que acima da cor ou de qualquer diferença somos humanos.
         Para conhecer mais sobre a temática e vocês construírem seus próprios pontos de vista, disponibilizo abaixo alguns links importantes que serviram de base para a produção desse artigo:


          Sintam-se a vontade e convidados a comentar sobre o artigo, ou mesmo nos dar sugestões de futuras publicações.


Por Ana Paula de Lima